Perturbação borderline: amar e superar as dificuldades da relação

Perturbação borderline: amar e superar as dificuldades da relação

Em Psicologia adultos por Sílvia Felizardo

Como lidar com as dificuldades que surgem na relação de casal quando amamos alguém com transtorno de personalidade ou perturbação borderline.

Deve saber que é possível ter uma vida de casal saudável com alguém que sofre de perturbação bordeline, apesar da relação de casal apresentar um conjunto de desafios únicos.

Assim, se ama e quer partilhar a sua vida com alguém com este transtorno de personalidade, este artigo poderá ser-lhe útil para perceber como pode ajudá-lo(a), ajudar-se a si próprio(a) e conseguir lidar com as situações de modo a melhorar a relação do casal.

Informe-se para compreender a perturbação borderline

O primeiro passo a dar é informar-se e saber o máximo possível sobre este tipo de transtorno de personalidade. Se quer perceber e ajudar a pessoa que ama, tem que compreender esta doença. Este artigo será certamente útil e poderá encontrar mais artigos no nosso site. Poderá pesquisar na internet, mas tenha sempre em atenção se os artigos são de fontes credíveis. Poderá ainda entrar em contacto connosco para esclarecer as suas dúvidas.

Depois, é provável que se questione sobre o que fazer, o que não fazer, como poderá ajudar o seu companheiro(a). Logo, tem que saber que a pessoa com perturbação borderline é emocionalmente instável, muito impulsiva, poderá culpabiliza-lo(a) sem motivo aparente, vive em constantes altos e baixos emocionais, que num momento diz que o(a) ama e no outro que o(a) odeia. Assim, a relação de casal esta constantemente a ser posta à prova. E poderá sentir confusão, revolta e muitas dúvidas. Porque não é fácil manter a autoestima e a calma. Por isso, tem que saber que também é muito importante ajudar-se a si própria, para que consiga superar todas estas dificuldades. Por exemplo, pode ajudá-lo(a) a evitar uma reação violenta e “tempestades” emocionais.

O que é o transtorno de personalidade borderline?

O transtorno de personalidade ou perturbação borderline é uma patologia mental, que se caracteriza por a pessoa que sofre deste transtorno apresentar uma grande instabilidade emocional, que afeta o comportamento, o estado de humor, a autoimagem e o relacionamento com os outros. Assim, a pessoa, com o medo de abandono, pode criticar e culpabilizar o outro, sem razão aparente, tornando as relações difíceis, o que traz sofrimento para as pessoas que lhe são próximas.

Uma característica que distingue este distúrbio de outros transtornos mentais, como a depressão e ansiedade, é que a pessoa com transtorno de personalidade borderline tem dificuldade em perceber que as suas emoções e reações se afastam da experiência humana típica, ou seja, tem comportamentos desajustados. Mesmo os que rodeiam essa pessoa tendem a pensar que são traços característicos dela e não indicadores de patologia.

Por isto, e porque os sintomas manifestam-se no contexto dos relacionamentos, torna difícil perceber que a pessoa sofre deste tipo de perturbação mental. Deste modo é difícil o diagnóstico da perturbação de personalidade borderline e somente um profissional de saúde mental o pode fazer.

Caraterísticas gerais das pessoas com perturbação borderline

A pessoa com transtorno de personalidade borderline apresenta as seguintes características gerais:

  • Muda de humor frequentemente porque vive no limite entre o amor e o ódio. O humor pode mudar de euforia para tristeza, raiva ou intensa vergonha e autocrítica. As mudanças de humor também ocorrem noutras patologias, como na perturbação bipolar, no entanto, a diferença está na duração do humor. Na perturbação de personalidade borderline as mudanças são mais rápidas e irregulares.
  • Procura desesperadamente evitar o abandono real ou imaginário devido ao medo intenso da rejeição, separação ou abandono. Por vezes, quando se vê na iminência de ficar sozinha, é levada a procurar uma ligação significativa, até mesmo, com quem possui pouca afinidade. Novas relações podem surgir de forma rápida, intensa e com muita intimidade, porém, são ligações frágeis.
  • Tem relacionamentos instáveis, com extremos de admiração e ódio. As relações são marcadas por extremos de idealização e desvalorização e/ou humilhação, por mudanças rápidas de pensar que alguém é perfeito para pensar que é mau.
  • Tem dificuldade em relação à autoimagem, em ver as suas próprias características, negativas ou positivas. Esta dificuldade é relativa não só à autoimagem corporal e de personalidade, mas também às características de identidade. A instabilidade está presente em vários contextos, desde mudanças súbitas em relação à autoimagem, às aspirações profissionais, à identidade sexual e valores.
As constantes mudanças de humor
Transtorno de personalidade borderline e as constantes mudanças de humor
  • Experimenta um sentimento crónico de vazio interno e não sabe como lidar com ele. Este sentimento pode desencadear conflitos conjugais recorrentes e provocar distúrbios no núcleo familiar.
  • Sente muitas vezes raiva intensa e dificuldade em controlar a raiva. A instabilidade e desregulação emocional pode levar a súbitos e intensos estados de raiva. A pessoa pode acordar bem e, à mínima frustração, manifestar uma raiva extrema dirigida a quem é mais próximo, frequentemente ao companheiro(a) ou namorado(a), fazendo prolongar e aumentar os conflitos na relação. Esta dificuldade em controlar a raiva pode levar a pessoa com a perturbação a pedir ajuda, por sentir culpa e vergonha após os acessos de raiva e agressividade.
  • Apresenta comportamentos impulsivos e irracionais, agindo muitas vezes sem pensar levada pela gratificação imediata. Esta impulsividade pode ser percebida de diversas formas, tanto prazerosas quanto agressivas. Os comportamentos impulsivos são muitas vezes arriscados e podem incluir o consumo de drogas, álcool, compulsão alimentar, sexo sem proteção, jogo compulsivo ou acumulações de dívidas no cartão de crédito.
  • Geralmente apresenta comportamentos suicidas recorrentes, com ameaças e automutilação. Muitas vezes ameaça fazer mal a si próprio(a) e, por vezes, passa mesmo ao ato. Nalgumas situações os comportamentos de automutilação podem ser pouco evidentes, como arranhar a pele ou rapar o cabelo. Em momentos de instabilidade emocional, a dor física é usada como válvula de escape. Apresenta um risco aumentado de suicídio, manifestando ameaças e realizando tentativas em momentos de extrema angústia.
  • Utiliza em excesso mecanismos de defesa psicológicos como a negação e a projeção, o que dificulta a tomada de consciência da sua doença e da sua capacidade de assumir responsabilidade por si próprio(a).

Sobre as causas da perturbação de personalidade borderline

Apesar de não se saber ao certo a origem da perturbação borderline são descritos fatores neurológicos e ambientais, como ambientes familiares hostis, cuidados imprevisíveis ou negligência, abusos, vivências de rejeição e abandono na infância. Alguns autores referem que as pessoas com este transtorno parecem ter um sistema de medo hiper-reativo por terem nascido assim (causas genéticas) e/ou devido a traumas precoces que provocaram medo intenso (causas ambientais).

Pessoa com padrão de vinculação insegura ou desorganizada

As pessoas com personalidade borderline podem ser descritas como tendo o que o psicanalista John Bowlby descreveu como um padrão de vinculação insegura ou desorganizada, e por isso a expectativa (inconsciente) é de que outros não estejam lá para elas. O padrão de vinculação que temos em adulto forma-se a partir das primeiras relações que estabelecemos, com os nossos pais ou cuidadores primários. Neste caso, foram estabelecidas relações ambivalentes ou de afastamento devido a imprevisibilidade nos cuidados que receberam (por vezes excessivos, outras ausentes) ou negligência ou abandono do cuidador primário.

Pessoa com perturbação borderline internaliza uma má representação de si mesmo e enfrenta um intenso sentimento de abandono

O psiquiatra psicanalítico, James Masterson, que formulou “o estudo e o tratamento de transtornos de personalidade”, elaborou a teoria de Bowlby e concluiu que a pessoa borderline, internalizou uma má representação de si mesma e uma representação dos outros que consiste em ver os outros a se retirarem, a abandonarem ou a não se importarem. Nos relacionamentos adultos, a ativação destas representações leva a pessoa a sentir intenso abandono, raiva e ansiedade.  Para se defender dos sentimentos de abandono, não tendo consciente o que os originou, a pessoa torna-se acusatória e culpa o outro pelo que sente (projeção).  Ao culpar o(a) companheiro(a) esses sentimentos são externalizados, vêm de fora de si, são provocados por outro sendo mais fácil livrar-se deles.

Sentimento de abandono na perturbação borderline
Sentimento de abandono na perturbação borderline

Sente uma constante necessidade de testar o amor do(a) companheiro(a)

Assim, a pessoa com perturbação de personalidade borderline, como viveu situações de rejeição/abuso/imprevisibilidade nos cuidados durante a infância, numa relação amorosa estabelece um vínculo impregnado das desconfianças de outrora. Não conhece o sentimento de ser aceite e compreendida, por isso, se o sente precisa de o testar repetidamente, como se não pudesse ser verdadeiro, os seus movimentos são de avanços e recuos. Vai testar constantemente o amor do(a) companheiro(a) e o quanto é importante e muitas vezes vai parecer que isso nunca será suficiente. Ao menor sinal interpretado como rejeição, pode agredir, interromper ou sabotar a relação. Não está ciente dos seus sentimentos de abandono subjacentes, mas geralmente age para aliviá-los procurando garantias constantes de que seu(sua) companheiro(a) o(a) ama e pressionando para que esteja sempre presente de alguma forma, como telefonar ou enviar mensagens e mostre gestos de amor.

Crenças de alguém com perturbação borderline

Ao longo do desenvolvimento formaram-se crenças inconscientes disfuncionais que estão subjacentes aos comportamentos de alguém com transtorno de personalidade borderline. Alguns exemplos dessas crenças ou pressupostos são:

“Só tenho valor se for sempre amado(a) pelas pessoas importantes da minha vida e for competente em todos os aspetos.”

“Algumas pessoas são boas e tudo nelas é perfeito, outras são más e devem ser severamente castigadas por isso.”

“O que sinto é sempre causado por acontecimentos externos em relação a mim. Não tenho controlo nas minhas emoções nem nas minhas reações a elas.”

“Ninguém se interessa comigo como eu me interesso, por isso acabo por perder toda a gente de quem gosto, apesar de todas as coisas que tento fazer para não me deixarem.”

“Serei feliz quando encontrar uma pessoa perfeita que me ame e faça sempre tudo por mim. Mas se encontrar alguém assim, alguma coisa deve estar mal com ela.”

“Não aguento a frustração que sinto quando preciso de alguma coisa de alguém e não a consigo. Esta frustração é tão intolerável que tenho de fazer alguma coisa para que passe”.

Dê prioridade ao autocuidado

A relação com uma pessoa com perturbação borderline é desgastante e geradora de muito stress e ansiedade. Por isso, deverá dar prioridade a cuidar de si próprio(a). Deverá procurar suporte emocional afim de evitar transtornos psicossociais motivados pelos stress. Deverá estar atento(a) aos sinais de ansiedade. Não se isole nem reduza toda a sua vida ao cuidar do seu companheiro(a).

Deve saber que também pode ter benefícios numa psicoterapia. A instabilidade e imprevisibilidade da relação podem trazer-lhe problemas de confiança e autoestima, pelo que poderá necessitar de ajuda profissional. Também pode acontecer que, sem intenção, tenha atitudes que pioram os sintomas da pessoa que ama e um profissional pode ajudá-lo(a) a saber como reagir, entender e apoiar.

Incentive a procurar ajuda profissional no tratamento da perturbação borderline

Apesar dos obstáculos e desafios, o transtorno de personalidade borderline tem tratamento, no sentido de ser possível uma recuperação. No entanto, é comum a pessoa com este transtorno evitar ou ignorar qualquer ajuda sendo importante, por isso, o seu incentivo e apoio.

Desta forma, deve saber como pode promover esse apoio, no sentido de ajudar a  pessoa com transtorno de personalidade borderline a reconhecer a necessidade de ajuda profissional. A possibilidade de recuperação será maior, se o seu(sua) companheiro(a) percebe que precisa de ajuda e que precisa mudar. Uma estratégia passa por ajuda-lo(a), sem confrontos, a um autoconhecimento, de modo que conclua sozinho(a) que necessita de ajuda, o que pode não ser fácil. Outra sugestão é usar meios de comunicação, como artigos online, filmes, etc., que o(a) levem a concluir que tem esta patologia.

Além do desafio de reconhecer que necessita de ajuda profissional, a pessoa que sofre desta patologia tem que vencer a dificuldade de manter a estabilidade do tratamento, que passa por diversas vertentes, tais como a psicoterapia, medicação e hábitos de vida saudáveis.

Psicoterapia

A psicoterapia é a principal aliada no tratamento da perturbação de personalidade borderline. Ter apoio de um psicoterapeuta, separadamente ou em casal, pode ajudar a pessoa com personalidade borderline a ter insights, comunicar-se melhor, resolver conflitos e melhorar os comportamentos e as relações.  A psicoterapia ajuda a pessoa a reduzir o pensamento dicotómico (pensar que tudo é preto ou branco, bom ou mau) e a saber responder às emoções com razão e julgamentos adequados diminuindo os comportamentos disfuncionais.

Perturbação borderline e psicoterapia de casal
Perturbação borderline e psicoterapia de casal

Medicação

Não existe medicação específica para o tratamento do transtorno de personalidade borderline, mas há medicamentos indicados para outras patologias que podem ajudar a tratar alguns sintomas, como anti-depressivos, ansiolíticos e estabilizadores de humor.

Hábitos de vida saudável

Em conjunto com a psicoterapia e medicação, hábitos de vida saudável, como boa alimentação e prática de exercício físico podem ajudar a aliviar alguns sintomas da perturbação borderline. Ter hobbies também é importante, uma vez que são atividades que não sendo terapias são terapêuticas.

Internamento hospital

Em casos muito graves pode ser necessário internamento no hospital, se a pessoa apresentar sintomas muito intensos, violência em relação a si própria e/ou outros.

Utilize formas adequadas de comunicar

A forma como comunica com alguém com transtorno de personalidade borderline é muito importante para reduzir os sintomas e os conflitos na relação.

Como responder quando é o alvo da raiva

Quando o(a) seu(sua) companheiro(a) se torna reativo pode acontecer que o(a) insulte, faça acusações injustas e irracionais e a sua tendência natural será defender-se e corresponder ao nível da reatividade, o que leva a uma escalada da raiva. No entanto, a sua defesa pode ser interpretada como desvalorização ou desinteresse e a sua reatividade pode ser a interpretada como a confirmação de que realmente e “mau/má”.

Então, como responder quando se sente injustamente acusado(a) pela pessoa que ama de o(a) maltratar ou abandonar? Ser acusado injustamente custa muito e quando as acusações são feitas pela pessoa que amamos ainda custa mais. Não é fácil, precisa estar atento(a) e conseguir compreender que o que está por trás das acusações são os sentimentos de abandono (mesmo que inconscientes). Tente controlar-se para não reagir automaticamente e lembre-se que os comportamentos disfuncionais não são a pessoa, a sua essência, a verdadeira pessoa está por detrás deles. Conseguir este autocontrolo pode ser muito difícil, mas é possível, exige muita compreensão e paciência da sua parte.  Se reagir sem pensar, arrisca-se a interpretar somente as demonstrações de raiva sem perceber que escondem intensa vulnerabilidade e sofrimento.

Se conseguir, tente ficar calmo(a) e responda com frases que demonstrem empatia, atenção e respeito. Lembre-se que as emoções são contagiosas principalmente as mais conflituosas, então vai sentir-se tão exaltado como está o(a) seu(sua) companheiro(a). Contudo se conseguir ultrapassar essa zanga que é reativa, pode responder com calma e pode acontecer que a sua calma se torne também contagiosa e a outra pessoa vá ficando com menos raiva. Percebo que esta pode ser a última coisa que lhe apetece fazer depois de ser acusado injustamente, mas conseguir ter esta reação de calma ajuda na maioria das vezes, uma vez que rejeita o conflito e muda o foco para o que pode ser feito para a resolução do problema.

Lembre-se sempre que não é responsável pela raiva do seu(sua) companheiro(a), não leve os ataques a um nível pessoal e responda de forma compreensiva, mas não permissiva, não invalidando o que a outra pessoa sente. Compreender não é permitir. Podemos não permitir os maus-tratos sem agressividade ou confrontos (leia “estabeleça limites saudáveis” à frente).

Ouça os sentimentos sem assumir a culpa

Ouvir e refletir pode ser uma estratégia muito eficaz na comunicação com alguém com transtorno de personalidade borderline. Embora possa discordar do que a outra pessoa está a dizer ou lhe pareça que não tem sentido e é irracional, ouvir não é o mesmo que concordar, é reconhecer as emoções e a perspetiva da outra pessoa para poder estar em sintonia. Ao ouvir como a outra pessoa se sente mostra que é alguém que se importa e não o(a) vai abandonar.  Mas ouça sem se sentir responsável pelos seus sentimentos. Ao sentir-se responsável pode estar a permitir que o comportamento destrutivo continue.

Evite rotular ou culpar

É importante não rotular ou culpar tudo o que a pessoa faz devido à sua patologia e compreender que o seu comportamento é uma reação contra o sentimento de abandono.

Faça perguntas abertas

Faça perguntas abertas que incentivem a pessoa a compartilhar, como “O que aconteceu hoje que te fez sentir assim? Conta-me como está a correr a tua semana.” Fazer perguntas abertas pode mostrar que se interessa e está disponível para ouvir.

Fale objetivamente

O transtorno de personalidade borderline pode fazer com que as pessoas interpretem mal o que os outros dizem, por isso tente falar da forma mais clara e objetiva possível. Pode também acontecer ter de dizer em palavras o que a outras pessoas, sem esta patologia, comunicaria com a expressão facial.

Fale quando ele(a) estiver calmo

Se precisar de falar sobre um assunto sensível fale quando o(a) seu(sua) companheiro(a) estiver calmo(a). Uma crise não é altura para abordar assuntos sensíveis. Quando os sintomas estão descontrolados a pessoa com transtorno de personalidade borderline pode tomar decisões irracionais, pode ficar na defensiva, afastar-se ou ter comportamentos prejudiciais.

Ajude a lidar com os sentimentos de abandono

Para que o(a) seu(sua) companheiro(a) com transtorno de personalidade borderline pare de projetar em si como se sente e de o(a) responsabilizar pelos seus sentimentos é importante que tome consciência dos seus sentimentos de abandono, entenda os seus gatilhos e module estes sentimentos. Para isso fale-lhe sobre eles. Assim poderá deixar de projetar em si mágoas do passado. Se ajudar o seu(sua) companheiro(a) a modificar os modelos internos de funcionamento, superando a perceção do abandono, ele(a) poderá estabelecer uma relação segura e amorosa.

Estabeleça limites saudáveis

Uma forma eficaz de ajudar um ente querido com um transtorno de personalidade borderline é ajudá-lo a alcançar controlo sobre o seu comportamento. Para isso, estabeleça limites ao seu comportamento. Com esses limites ele(a) pode se regular.

É importante abordar com o seu/sua companheiro(a) os comportamentos indesejados sem culpar ou julgar, mas fazer entender que não os permite. Ceder a um comportamento indesejado ou não falar dele permite que ele continue até que fica fora de controlo e domina a relação. Seja forte para estabelecer limites saudáveis ao comportamento indesejado e ao mesmo tempo mostre compreensão e empatia, indicando com afeto o que não é permitido. Por exemplo: “amo-te e quero que a nossa relação funcione, mas ao falares assim ou ao fazeres isso magoas-me ou magoas-te a ti. Peço-te que mudes esses comportamentos por ti e por nós”.

Não ignore as ameaças de suicídio e ofereça apoio emocional

Se a pessoa que ama ameaça fazer mal a si própria, convide-a a falar sobre o que está a sentir e procure avaliar se a assistência profissional é necessária. Todas as ameaças de suicídio devem ser levadas a sério porque mesmo que procurem apenas chamar a atenção podem provocar danos graves. Não quero dizer com isto que sempre que o seu companheiro(a) ameaçar se magoar tenha de ficar aflito(a) e procurar ajuda. Isso enviaria a mensagem que ele(a) tem muito poder sobre si. Em vez disso, pergunte-lhe o que acha melhor para o(a) ajudar a lidar com esses pensamentos, por exemplo, falar com o seu psicólogo, ligar para uma linha de apoio, ir com ele(a) ao serviço de urgências de um hospital. Assim, dá-lhe uma certa dose de ação que pode inverter a escalada emocional numa crise.

Por fim, mas muito importante, ofereça ao(à) seu(sua) companheiro(a) com transtorno de personalidade borderline compreensão, paciência e apoio emocional. Incentive e apoie o seu tratamento.

Conclusão

Uma sua relação amorosa com alguém com perturbação de personalidade borderline pode ser muito difícil e exigir muito trabalho de ambos, mas uma relação saudável e de longo prazo é possível. A sua estabilidade pode ter um efeito positivo nas emoções que experimenta o seu companheiro(a) com transtorno de personalidade borderline. O firme estabelecimento de um vínculo na relação e o sentir-se aceite e compreendido(a) vai-lhe dar a possibilidade de perceber as suas dificuldades e recuperar. Incentive a procurar ajuda profissional e apoie o tratamento. Dê prioridade a cuidar de si próprio(a), e se necessário também deve beneficiar de ajuda profissional. Não se isole nem queira fazer tudo sozinho(a).

As estratégias que partilhei, juntamente com grandes doses de carinho, compreensão e coerência poderão vir a melhorar a sua relação amorosa e torná-la gratificante. Continuará a haver desafios, mas será mais fácil superá-los.

Silvia Felizardo / Psicóloga Clínica

© PsicoAjuda – Psicoterapia certa para si, Leiria

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Sobre o Autor

Sílvia Felizardo

Psicóloga clínica e colaboradora da PsicoAjuda como autora de artigos e publicações. Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde pela Ordem dos Psicólogos. Licenciatura pré-Bolonha em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa. Membro da Ordem dos Psicólogos.