Psicoterapeutas virtuais

O perigo dos psicoterapeutas virtuais

In Psicologia adultos por Tiago Marques

Em pleno 2026, o avanço acelerado da inteligência artificial revela-se simultaneamente fascinante e inquietante. Numa sociedade cada vez mais digital, cresce a sensação de incerteza e insegurança, levando-nos a questionar sobre a autenticidade dos conteúdos com que somos confrontados nas redes sociais. Imagens e vídeos manipulados de forma sofisticada, cada vez mais difíceis de distinguir ficção da realidade. Desde acontecimentos quotidianos à política, passando por eventos históricos e desinformação na saúde física e mental, este fenómeno parece não ter limites e é neste contexto que emerge também o perigo dos psicoterapeutas virtuais, aumentando a complexidade e risco à forma como compreendemos e cuidamos da nossa saúde mental.

Teríamos um mundo melhor sem IA?

O que se está a defender é a abolição do digital das nossas vidas e um retorno radical às origens? Claro que não. Os benefícios da inteligência artificial e do avanço digital são enormes, em áreas como a educação, criação de novos postos de trabalho, automatização de tarefas… Ainda assim, surge a questão.

Mas também não poderá a Inteligência artificial contribuir para a perda de postos de trabalho? Ou, serão os psicólogos substituídos e replantados pelo recurso a ferramentas de inteligência artificial?

Os “psicoterapeutas virtuais”

No campo da saúde mental, emergem os “psicoterapeutas virtuais” que conseguem identificar na comunicação com as pessoas dificuldades emocionais, que facilitam educação psicológica deliberada e potenciam a aprendizagem de técnicas e competências que visam a redução dos níveis de ansiedade (Fiske et al., 2019). Estudos mostram que estes chatbots, desenvolvidos com base em modelos psicoterapêuticos validados, podem ser eficazes na redução de sintomas depressivos (Fitzpatrick et al., 2019) e, inclusive, algumas pessoas estabelecem com eles um vínculo semelhante ao de uma relação humana (Darcy et al., 2021)! Fascinante, não?

O lado dúbio e sombrio dos psicoterapeutas virtuais

No entanto, estas evidências não se encontram suficientemente consolidadas e surgem questões como a segurança da pessoa e fornecimento de dados. Alguns autores apontam para dependência posterior ao uso deste tipo de ferramentas. A responsividade desse apoio prestado face à individualidade de cada pessoa fica em risco (Abd-Alrazaq et al., 2020; Lim et al., 2022).

Atualmente, existem inúmeros relatos de conversas entre sites de ferramentas de inteligência artificial e o ser humano. Levanta-se a questão sobre o perigo dos psicoterapeutas virtuais. Ainda que, numa tentativa compreensível e desesperada de amenizar o sofrimento ao ter uma conversa com uma ferramenta digital, constatou-se a ocorrência de situações que terminaram com ainda mais dor do que a inicialmente sentida. Em casos extremos, com pessoas a recorreram ao suicídio após alegado aconselhamento das ferramentas de IA.

Vantagens no uso da inteligência artificial
Vantagens no uso da inteligência artificial

O futuro do trabalho na era da inteligência artificial

A introdução da IA no mundo do trabalho implica prevenir que se perpetuem ou agravem desigualdades no acesso ao trabalho, influenciem a manutenção do emprego ou detenham consequências nefastas para a Saúde Psicológica dos trabalhadores/as cujas funções são geridas ou substituídas por sistemas automáticos e inteligentes (Parker & Grote, 2019). Poderá uma ferramenta de IA oferecer o mesmo arsenal de competências que um psicólogo oferece?

Nos últimos anos assistimos a um fenómeno generalizado e amplamente disseminado. Muitas pessoas recorrem a sistemas de terapia automatizada em simultâneo com acompanhamento psicológico (mais assustador ainda, por vezes no lugar de acompanhamentos psicoterapêuticos). Impõe-se a nós, profissionais de Psicologia, o dever de compreender e refletir sobre os seus impactos, limites e implicações na relação terapêutica bem como na segurança dos próprios pacientes.

Chatbots terapêuticos: promessa ou ilusão?

Vamos então ao cerne da questão. Poderá a profissão da psicologia estar ameaçada e o uso de IA ser tão eficaz e equivalente como fazer terapia?

No decorrer do processo psicoterapêutico trabalha-se o bem-estar do paciente, sendo necessárias mudanças de determinados comportamentos e formas de pensamento. Só passando pelo desconforto da mudança se poderão alcançar objetivos terapêuticos definidos entre psicólogo e paciente. Se não mudarmos, dificilmente nos sentiremos de outra forma.

Um dos fatores mais importantes e documentados como influenciando essa mesma mudança terapêutica é a relação terapêutica entre o psicólogo e o paciente. Aliás, Norcross e Lambert (2019) defendem que 15% dessa mudança, que leva ao bem-estar psicológico do paciente, deve-se ao tipo de relação terapêutica (confiança, comunicação) entre psicólogo e paciente, que estimula e engrandece a aliança terapêutica (colaboração entre estes dois agentes de mudança). Ou seja, a relação terapêutica constitui-se como um pilar essencial dos processos de intervenção psicológica na psicoterapia. Exige do Psicólogo, competências que incluem: a escuta ativa, a empatia, a capacidade de compreensão e de leitura dos processos relacionais do outro.

O lado invisível dos terapeutas digitais

Poderá a IA oferecer esta relação terapêutica? Princípios que poderão ser violados e não respondidos pela IA:

Com a IA, dimensões como: empatia, escuta ativa, compreensão, leitura dos processos relacionais do outro poderão ser reproduzidas de forma simulada. No entanto, não surgem da intenção ou do afeto, mas sim de associações estatísticas que imitam padrões humanos, e implicam por isso uma vivência entre duas pessoas apenas aparente, leviana, sem a complexidade e imprevisibilidade natural das interações humanas.

Trata-se de uma vivência que implica também a dimensão corporal. O olhar, a voz, o gesto e a presença física são elementos impossíveis de reproduzir de forma autêntica por um sistema digital, pelo menos de acordo com a capacidade atual (Ordem dos Psicólogos, 2025).

A importância insubstituível da relação humana

Sabe-se que a relação terapêutica é um processo que requer conhecimento, treino e segurança para reconhecer a reparar as próprias falhas dessa mesma relação, que poderão eventualmente surgir! A própria finitude e falibilidade do psicólogo são essenciais na relação terapeutica!

Nós, os psicólogos, por vezes também falhamos ou adoecemos, e isso já é parte integrante da experiência entre terapeuta e paciente, permitindo ao próprio paciente confronto por vezes até com medos relacionados com o acima descrito e promovendo desenvolvimento de autonomia! Isto implica afetos, memórias e experiências psicoemocionais, que necessitam de contenção, cuidado e presença genuína!

Interações com inteligência artificial, contrariamente ao contacto com o psicólogo, eliminam toda esta experiência. Poque criam a ilusão de disponibilidade e compreensão ilimitadas, implicando dependência e transporte de relações e expectativas irrealistas para as outras relações humanas. Em casos extremos, podem levar o paciente ao desinvestimento em relações reais!

Um dos princípios da psicoterapia é o da autonomia do paciente. Assim que as metas se alcancem o objetivo final é que o paciente consiga, de forma autónoma, lidar com os desafios do dia a dia. A ilusão da IA poderá danificar este princípio (criando dependência).

Complementariedade da IA e o ser humano
Complementariedade da IA e o ser humano

Equilíbrio necessário entre o humano e a inteligência artificial

O contacto entre o psicólogo e o paciente não é tão simplista como muitas vezes a IA tende a parecer. É de facto, de carácter bastante complexo. Temo que esta complexidade se perca na consulta de psicoterapeutas virtuais, por exemplo. O que é feito em psicoterapia e na intervenção psicológica é sustentado em vários modelos de intervenção, que são ajustáveis, dependendo do carácter único de cada pessoa. A sua escolha assenta em diversas variáveis: desde o estilo de cada um, formação, e ajuste às dificuldades do paciente e até mesmo da abertura do próprio paciente à metodologia de intervenção.

A replicação total da experiência humana é um desafio que ferramentas digitais devem ser concebidas para complementar a prática de profissionais humanos qualificados para tal, nunca substituindo!

Na minha percepção, enquanto psicólogo (e tal como a OPP defende), este tema carece de mais investigação e reflexão, tendo hoje apenas abordado de forma breve, ainda que sustentada a pertinência da discussão da temática.

Num mundo cada vez mais tecnológico, o desafio não será rejeitar a inovação, mas sim integrá-la de forma consciente. Em saúde mental a IA deve ser utilizada com responsabilidade, ética e supervisão, garantindo sempre que a experiência humana não se perca. O futuro não deve ser uma escolha entre humano ou máquina, mas uma colaboração harmoniosa entre ambos.

Dr. Tiago Marques/Psicólogo Clínico © Psicoajuda – Psicologia certa para si, Leiria

Imagens cortesia:www.freepik.com

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Tiago Marques