É difícil imaginar a sociedade atual sem redes sociais. Estas fazem parte do nosso quotidiano e oferecem inúmeras vantagens. Destacam-se desde a possibilidade de manter contacto com quem está distante até ao acesso rápido a informação e inspiração. No entanto, quanto mais tempo passamos a observar a vida dos outros nas redes sociais, maior a tendência de cair na tentação de nos compararmos. A comparação, muitas vezes silenciosa, poderá ter um impacto significativo na nossa autoestima. Neste artigo iremos perceber o verdadeiro impacto das redes sociais na autoestima! E conhecer os riscos.
Autoestima, o que é?
A autoestima diz respeito à forma como nos sentimos conosco mesmos e é influenciada pelo autoconceito. Significa a avaliação (perceções, crenças, imagem) de como nos vemos a nós próprios e quem achamos que somos. A autoestima é o valor emocional dessa avaliação. Se a apreciação que fazemos de nós mesmos é mais negativa, a nossa autoestima, à partida, será menor.
O ser humano tem um impulso, um anseio inerente de comparação com o outro. Tal acontece de modo a serem satisfeitas necessidades como a tomada de decisão, sentimento de pertença/aceitação, inspiração, avaliação de nós próprios, regulação de emoções e bem-estar.
O curioso, mas também preocupante, é que, ao compararmo-nos com alguém que avaliamos como “superior”, ainda que com o intuito de satisfazer as nossas necessidades, levará a maior possibilidade de sentimentos/afetos “negativos”/desagradáveis. Por consequência, a comparação ascendente faz-nos questionar a visão que temos de nós mesmos!
Que tipos de comparação existem?
Existem dois tipos de comparações presentes:

O risco das comparações
- Comparação social ascendente – quando nos comparamos com alguém que possui características positivas.
- Comparação social descendente – quando nos comparamos com alguém que consideramos como inferior, possuindo essa pessoa características ou atributos percepcionados como negativos.
Apesar de sim, a comparação ascendente poder tornar-se benéfica quando nos inspira a tornarmo-nos melhores, mais capazes, e de perseguirmos ser uma pessoa mais próxima desse alvo de comparação, no entanto, existe o risco de aumentar sentimentos de inadequação, afetos negativos e uma autoavaliação mais negativa! Ou seja, as redes sociais, mediante a interpretação comparativa que fizermos poderão impactar efetivamente a nossa autoestima.
Já a comparação descendente, pode contribuir para sentimentos e emoções mais desagradáveis como ansiedade, raiva, tristeza, frustração. Isto acontece porque ao observamos alguém em circunstâncias piores (pode gerar em nós muita empatia mas também desvalorização das nossas dificuldades atuais). Por outro lado, também pode levar a melhorias no nosso bem estar, ao observarmos alguém numa situação pior, melhorando um pouco o afeto e autoavaliação da nossa situação atual.
A imagem que cada um passa nas redes sociais e as armadilhas nas nossas interpretações
Durante a utilização das redes sociais, há uma grande permeabilidade à comparação ascendente.
Cada pessoa tem uma oportunidade, ao utilizar as redes sociais, de apenas demonstrar aquilo que entende, nomeadamente apenas os atributos positivos ou experiências positivas e conquistas. O que pode ser um risco para quem segue estes perfis. Quase que num alcance/visão quase que perfeita da sua vida, através de uma auto apresentação meticulosa e, por vezes, criteriosamente adulterada, demonstrando-se apenas o mais desejável socialmente. São exemplos a partilha de altos padrões de realização, beleza, capacidade financeira, atributos, entre outros. Ou seja, é assim criada a imagem de uma pessoa no mundo virtual que, na realidade, é mais difícil de replicar com o mesmo grau de estratégia.
O impacto das redes sociais na autoestima!
O impacto que surge é que, ao analisar as redes sociais do outro, as imagens positivas que são projetadas podem facilmente levar a que a pessoa que está do outro lado do ecrã acredite que os outros são mais felizes que eles próprios, mais bem-sucedidos, impactando diretamente na auto estima. Além disso, isto desencadeia emoções e estados de humor de maior desconforto e sofrimento. São exemplo disso a origem de quadros depressivos e ansiosos. (Chou e Edge, 2012).
De facto, este eu idealizado (que é interpretado pelo que o outro partilha) é por vezes esquecido durante o processo mental da comparação. Esquecemo-nos que só estamos a ver uma parte ínfima da vida da pessoa e o que ela quer mostrar. Isto torna-se prejudicial nas nossas percepções e crenças sobre o mundo, nós próprios e o outro, impactando naturalmente a autoestima e a confiança. Não damos tanto foco à interpretação que o outro não está a mostrar as suas dificuldades, desafios, dias menos bons…

Os likes impactam a nossa autoestima
Os likes, seguidores e visualizações…
Outro fator que parece afetar a autoestima é o número de amigos/seguidores, os gostos ou visualizações. Sendo associada uma visão positiva e de sucesso a quem tem maior número de interações.
Esta comparação da popularidade leva muitas pessoas a associarem que nas redes sociais um maior número de seguidores, gostos ou visualizações a níveis superiores de sucesso, felicidade e atratividade. No entanto, esta percepção constitui uma grande armadilha para os utilizadores, uma vez que o valor pessoal, a felicidade, o sucesso, a capacidade e a atratividade não dependem, na realidade, do alcance atingido nas redes sociais.
O que estudos como o de Vogel et al. (2014) nos indicam que quanto mais tempo permanecemos nas redes sociais, maior a probabilidade de sentirmos inveja das pessoas que consideramos mais bem sucedidas que nós. Consequentemente pode levar a sentimentos de inferioridade, injustiça e invalidação. Isto poderá impactar a nossa autoestima, contribuindo para maiores sentimentos de insatisfação com a vida, impactando o bem-estar.
Não são necessariamente as redes sociais que são más, mas sim a comparação que emerge nestas que tem impacto na autoestima.
Podemos concluir que as redes sociais têm um papel e influência relevantes no mundo atual. Deste modo, é naturalmente impossível afastar as pessoas principalmente as crianças e adolescentes durante muito tempo. Ainda assim, recomenda-se um papel ativo de orientação, colocação de limites, monitorização e limitação do acesso a determinados conteúdos e horas de exposição. Importa sensibilizar para as consequências negativas que existem, como a comparação que foi abordada neste artigo.
Dr. Tiago Marques/Psicólogo Clínico © Psicoajuda – Psicologia certa para si, Leiria

