Adolescente viciado no telemóvel

Viciado no telemóvel? O seu filho pode sofrer de nomofobia

Em Psicologia adolescentes por Elisabete Condesso

Atenção! O seu filho pode estar viciado no telemóvel e sofrer de nomofobia. Confira os sinais de alerta.

(Este artigo foi publicado na revista Pais&Filhos, edição especial adolescentes, julho de 2017, pag. 70-73)

Artigo Pais&Filhos Viciado no telemóvel

Artigo Pais&Filhos Viciado no telemóvel

Como reconhecer se o seu filho está viciado no telemóvel?

Já poderá ter reparado que o seu filho sente a necessidade de verificar o telemóvel sem razão aparente ou fica aborrecido quando não consegue usar o telemóvel porque ficou sem bateria ou sem rede. E se ele utiliza este dispositivo móvel para aceder às redes sociais, provavelmente, o seu nível de preocupação ainda é mais intenso. Mas será que ele é viciado no telemóvel? Confira aqui alguns dos sinais de alerta:

  • Ele mostra-se ansioso ou inquieto quando fica longe do telemóvel
  • Verifica constantemente o telemóvel
  • Fica aborrecido quando não pode usar o telemóvel porque ficou sem bateria ou sem rede
  • Evita a interação social em detrimento da utilização do telemóvel
  • Distrai-se frequentemente com emails, SMS ou outras aplicações móveis
  • Revela um declínio no seu desempenho académico
  • Acorda a meio da noite para verificar o telemóvel

Se respondeu afirmativamente a muitos destes pontos, então o seu filho poderá estar a sofrer de nomofobia, ou seja, está viciado no telemóvel!

O que é a nomofobia

As crianças e jovens estão a ficar cada vez mais viciados no telemóvel. Um estudo recente mostra que os adolescentes portugueses apresentam um valor de utilização excessiva do smartphone (57%) que é superior à média europeia (48%).

Eles poderão sofrer de nomofobia, uma nova forma de fobia introduzida nas nossas vidas como resultado da interação da pessoa com os dispositivos móveis, em particular com o smartphone, e que está presente em todas as nações industrializadas.

Jovens viciados no telemóvel

Jovens viciados no telemóvel

De modo a compreender melhor esta nova forma de fobia (nomofobia), têm sido realizados diversos estudos em todo o mundo, procurando ao mesmo tempo olhar para este problema de diferentes perspetivas. Um desses estudos permitiu identificar as quatro características da nomofobia:

  1. Não conseguir comunicar. O jovem sente-se inseguro porque não consegue ligar ou enviar SMS.
  2. Ausência de conectividade. O jovem sente que está desligado da sua identidade no mundo digital, em particular do seu perfil no Facebook.
  3. Não conseguir aceder à informação. O jovem sente-se desconfortável quando não consegue, por exemplo, obter respostas às suas perguntas no Google.
  4. Ausência de conveniência. O jovem fica irritado porque não consegue terminar as suas tarefas, tais como continuar um jogo online.

Estas representam preocupações distintas que contribuem para a angústia geral da pessoa que sofre de nomofobia.

Este estudo que permitiu chegar a estas conclusões foi coordenado por Ana Paula Correia, professora associada na Faculdade de Educação da Universidade Estatal de Iowa, Estados Unidos, e foi publicado em Agosto de 2015 na revista “Computers in Human Behavior”.

O uso excessivo do smartphone, ou seja, estar viciado no telemóvel, é de tal modo grave que nalguns países asiáticos, como a Coreia do Sul, obrigou o Ministério da Educação deste país a criar um programa de prevenção e identificação precoce de crianças e jovens em risco. No âmbito dessas ações, o governo sul-coreano lançou uma controversa aplicação para dispositivos móveis de modo a monitorar o uso do smartphone e restringir o acesso a jogos online depois da meia-noite.

E como estamos em Portugal?

Em Portugal também se têm realizados alguns estudos, acompanhando a preocupação mundial sobre os efeitos excessivos da utilização do Smartphone. Salientamos aqui dois estudos recentes bastante relevantes. O primeiro foi realizado em 2014 pelo Instituto de Psicologia Aplicada (ISPA), em que foram inquiridos jovens portugueses até aos 25 anos, cujos resultados mostram que 70% apresentam sinais de dependência do mundo digital, em que 13% são casos graves, podendo implicar isolamento ou comportamentos violentos e que obrigam a um tratamento.

Este estudo foi coordenado pela investigadora Ivone Patrão e confirma os sinais de uma geração cada vez mais dependente da tecnologia. Como exemplo, é relatado o caso de um rapaz que afirma que os seus amigos ficariam zangados caso ele não respondesse rapidamente às mensagens, mesmo no horário em que deveria estar a dormir. Assim, este fenómeno pode mesmo conduzir a situações limites em que é posto em causa o bem-estar físico da pessoa.

O segundo estudo que gostaria de referir foi conduzido pelo Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa (CESNOVA), realizado em 2014, no âmbito do projeto Net Children Go Mobile. Este estudo evidência o uso excessivo do telemóvel no início da adolescência (11-12 anos), decrescendo no grupo intermédio (13-14 anos), para voltar a subir nos adolescentes mais velhos (15-16 anos).

Cerca de um quinto afirmam mesmo estar menos tempo do que deviam com a família, os amigos ou a realizar as tarefas escolares, confirmando a importância do telemóvel em detrimento de outras formas de relacionamentos ou atividades. Quando comparada a utilização do smartphone com outros países europeus, constata-se que os adolescentes portugueses apresentam um valor de utilização excessiva do smartphone (57%) que é superior à média europeia (48%), aparecendo o Reino Unido no topo (65%).

Em resumo, cerca de 70% dos jovens portugueses apresentam sinais de dependência do mundo digital, um número superior à média europeia!

Estas são algumas das evidências e servem como sinal de alerta para os pais, sobretudo com filhos adolescentes, para que dediquem uma atenção redobrada e prioritária ao problema da utilização excessiva do telemóvel.

Antes de avançar com algumas recomendações como os pais podem ajudar os seus filhos, há que perceber as causas de estar viciado no telemóvel.

Perceber as causas de estar viciado no telemóvel

Devo salientar que o apego ao Smartphone pode não ser algo necessariamente negativo, e por isso condenável ou proibido. O problema surge quando a utilização se torna excessiva, quando se está viciado no telemóvel, começando a interferir com a saúde física e bem-estar psicológico da pessoa.

Como exemplo, uma jovem de 19 anos, que está a ser submetida a tratamento de nomofobia desde Abril de 2013, relatou que o seu telemóvel tinha-se tornado o seu mundo, uma extensão de si. O seu coração começava a acelerar e as palmas das mãos a suar, só de pensar que poderia perder o seu telemóvel, por isso nunca se separava dele.

Os seus pais confirmaram que o uso do telemóvel da sua filha servia para amplificar outros problemas comportamentais que ela ia exibindo, tais como a diminuição na participação em hobbies e atividades escolares.

Para muitos adolescentes, o dispositivo móvel é visto como a chave única para um contacto humano mais vasto. É percecionado como sendo uma espécie de extensão do seu próprio corpo, por permitir ser guardado e transportado facilmente para qualquer lado.

Telemóvel como extensão do seu próprio corpo

Telemóvel como extensão do seu próprio corpo

Crianças ou jovens adultos mais vulneráveis, com maiores dificuldades nas relações com os outros, poderão sentir-se à deriva e não conseguir conectar-se com outras pessoas. Para muitos deles, o telemóvel é a única conexão com os amigos. Assim, ele pode assumir uma importância desproporcional.

Relembrar que o desafio para qualquer adolescente é passar do seu núcleo familiar para as relações sociais mais alargadas. Ora, por um lado, essa tarefa parece ser aparentemente facilitada pela Internet e, por outro, os jovens têm a sensação de satisfazer as suas necessidades de relacionamento social no mundo online. Por isso, não é de surpreender que sejam os jovens com maiores dificuldades de relacionamento ou com traços de isolamento que sejam os mais dependentes.

Por isso, estamos a perceber que a dependência não é uma causa, mas a consequência de determinadas situações experienciadas pelo adolescente. Por exemplo, quando ele se sente frustrado ou irritado, com ansiedade em consequência de um determinado acontecimento familiar, escolar ou de relacionamento com os seus pares, ele encontra aconchego no mundo digital.

O uso excessivo da internet ou do smartphone está a suprir uma necessidade do jovem, aparecendo aqui como um substituto do que não consegue encontrar no mundo real.

Em suma, dificuldades de relacionamento, ambiente familiar constrangido, problemas escolares, são geralmente as causas de estar viciado no telemóvel.

A prática comumente encontrada pelos pais de retirarem o smartphone ou limitarem fortemente o acesso a ele, não é geralmente a melhor solução. Se lhe retiramos o smartphone, ele fica no vazio. Em vez disso, é necessário que ele adquira interesse por atividades alternativas antes de diminuir o tempo no online.

Está na hora de fazer uma pausa

No meu consultório já me tenho deparado com casos clínicos de adolescentes com dificuldades psicológicas motivados pelo uso excessivo do telemóvel, situação que motiva uma intervenção psicoterapêutica. E, como já referi, os diversos estudos mostram uma elevada percentagem de crianças e adolescentes que utilizam excessivamente o telemóvel.

Dai colocar a questão como encontrar um ponto de equilíbrio e evitar o uso excessivo do telemóvel. Como pode ajudar o seu filho para que tenha um comportamento mais equilibrado?

Nesse sentido, como mãe ou pai, é necessário que ensine o seu filho a lidar com este dispositivo móvel. É particularmente útil nesta situação que ajude o seu filho a lidar com a pressão social de estar sempre “online”. Deverá falar com o seu filho e explicar que é perfeitamente normal estar “offline”, pelo que não é necessário responder imediatamente às notificações das redes sociais ou SMS.

Deverá ainda ensinar-lhe técnicas de automonitorização, para monitorizar o seu próprio comportamento, e que devem ter o apoio e incentivo de todos os membros da família e amigos.

É importante ainda que acompanhe a utilização do telemóvel do seu filho. Neste processo tem que oferecer-lhe um suporte afetivo, que lhe proporcione um ambiente de proximidade e confiança, mas sem entrar num protecionismo excessivo. Tem que ter em conta a facha etária e as diferenças de género. As crianças mais novas requerem um maior apoio e presença dos pais, e que é facilitado pelo fato de elas gostam de mostrar as suas habilidades aos seus pais.

A atenção a essas diferenças e o reconhecimento de que a confiança e o respeito mútuo devem estar sempre presente, irá fortalecer a relação pais-filho.

Além destes aspetos fundamentais, poderá ainda seguir alguns exemplos práticos que poderão ajudar o seu filho:

  • Quando o seu filho dorme à noite, ele deve colocar o smartphone a pelo menos 5m de distância, de preferência noutra divisão da casa.
  • Durante o dia, deve incentivar o seu filho a ter interações com outras pessoas, cara-a-cara, e sem interrupções derivadas da utilização do smartphone.
  • Deste modo, durante a semana, ele equilibra o tempo passado com outras pessoas e no smartphone.
  • Uma vez por mês, deveria procurar desligar o smartphone durante todo o dia. É o dia em que ele se liberta!

Será que o seu filho está pronto para fazer uma pausa do telemóvel?

Elisabete Condesso / Psicóloga e Psicoterapeuta

© PsicoAjuda – Psicoterapia certa para si, Leiria

 

Imagens cortesia de Light Machinery e JMD’sdad em Flickr.com

Sobre o Autor

Elisabete Condesso

Directora clínica da PsicoAjuda. Psicóloga clínica e Psicoterapeuta. Licenciada em Psicologia Clínica pela ULHT de Lisboa e com pós-graduação em Consulta Psicológica e Psicoterapia. Membro efetivo da Ordem dos Psicólogos. Título de especialista em “Psicologia clínica e da saúde” atribuído pela Ordem dos Psicólogos.