Agressões físicas e psicológicas nos jovens

Relações abusivas na adolescência: Conhecer para prevenir

In Psicologia adolescentes por Romina Pereira

É expectável que, chegados à fase de adolescência, os jovens se afastem do seu núcleo familiar e intensifiquem os seus movimentos de socialização. É também nesta altura que surgem os primeiros relacionamentos amorosos significativos. Os jovens vivem estes relacionamentos com intensidade durante este período e, frequentemente, recordam-nos ao longo da vida. Apesar da paixão poder trazer sentimentos muito positivos e ter consequências também elas positivas, como maior autoestima, maior sentido de autonomia e eficácia, maior disponibilidade para as relações, maior motivação e até maior autoconfiança, as relações abusivas na adolescência, poderão trazer, por outro lado, consequências muito negativas. Saiba identificar os sinais de alerta das relações abusivas para prevenir futuros problemas.

Sofrimento dos jovens com o namoro
Sofrimento dos jovens com o namoro

Conhecer para prevenir: O que são relações abusivas?

Relações abusivas na adolescência e não só, consistem num relacionamento em que uma pessoa exerce poder e controlo sobre a outra de forma persistente, causando sofrimento, medo ou perda de autonomia, podendo ser infligida de diversas formas.

A violência no namoro é um crime público desde 2013 – alínea 1b), segundo o artigo 152º do Código Penal:

A pessoa de outro ou do mesmo sexo com quem o agente mantenha ou tenha mantido uma relação de namoro ou uma relação análoga à dos cônjuges, ainda que sem coabitação

Quais os tipos de violência que existem nas relações abusivas?

A violência não é apenas na forma física, esta pode assumir outras formas:

  • Emocional e Psicológica – “corresponde a um conjunto de atos verbais ou não verbais, isolados ou repetidos, utilizados de forma intencional para causar dano e sofrimento emocional e psicológico na vítima”.
  • Verbal – “Quando nos chamam nomes ou gritam, nos humilham ou fazem comentários negativos sobre nós, nos intimidam e ameaçam”.
  • Sexual – “Quando somos obrigados a praticar atos sexuais contra a nossa vontade ou quando somos acariciados/tocados sem que queiramos.
  • Digital – “Quando entram nas nossas contas de e-mail, FB, etc., quando controlam o que fazemos nas redes sociais, quando perseguem os nossos perfis”.
  • Social – “Quando nos envergonham ou humilham em público, sobretudo junto de amigos; quando mexem no nosso telemóvel ou vigiam o que fazemos nas redes sociais sem permissão; quando somos proibidos de conviver com os nossos amigos e família”.

Alguns sinais de alerta

  • Gritar/ Ameaçar/ Intimidar/ Bater
  • Humilhar/ Ridicularizar/ Insultar
  • Controlar/ Manipular
  • Desprezar/ Ignorar
  • Desrespeitar
  • Obrigar
  • Difamar

Relações abusivas na adolescência, o que revelam as estatísticas?

Segundo o estudo Violência no Namoro em Portugal: Vitimização e Conceções Juvenis da UMAR (2026) “Do total de jovens participantes no estudo, 68,2% (n=5454) não consideram violência no namoro, pelo menos 1 dos 15 comportamentos analisados no inquérito”:

  • Controlo – 53.4%
  • Perseguição (presencial e digital) – 40.9%
  • Violência Psicológica – 27.6%
  • Violência através das redes sociais – 18.1%
  • Violência Física – 5.9%

O impacto da era digital nas relações de namoro entre os jovens

Atualmente, a par da evolução tecnológica, são vários os desafios que os jovens enfrentam na experiência da relação amorosa, com a emergência das novas tecnologias surgiram também novos tipos de abusos nas relações dos adolescentes.

O controlo e a constante necessidade de proximidade, ainda que virtual, tornam-se duas características negativas destas relações. O fácil acesso à disponibilidade virtual do outro, mas também à sua localização, pode gerar muitos conflitos que assentam na tentativa de controlo e manipulação do outro, existindo menos tolerância para momentos a sós ou com amigos.

A necessidade de respostas rápidas, intensifica a dependência do telemóvel, sendo esta, por vezes, a principal ponte de contacto entre o adolescente e o seu parceiro.

Conhecer para prevenir
Conhecer para prevenir

Muda o Chip. Controlo no namoro é violência

Sabias que a APAV já apoiou 3968 vítimas de violência durante e após relações? 29% delas tinham menos de 25 anos. Vídeo disponível em: https://sicnoticias.pt/pais/2026-02-13-video-relationchip-apav-admite-risco-em-campanha-polemica-mas-acredita-em-maior-impacto-nos-jovens-26f08157

Privacidade e confidencialidade no namoro?

Outros aspetos que parecem estar cada vez mais em causa são a privacidade e a confidencialidade. A partilha de experiências e imagens acerca do próprio, do parceiro e do casal, geram uma maior e mais rápida exposição social, o que pode dificultar o término de relações de namoro.

A privacidade e a confidencialidade estão ainda postas em causa através da partilha de conversas e imagens, sobretudo através de print screens, que são enviados a terceiros sem qualquer autorização ou conhecimento do parceiro.

A ONGD Não Partilhes tem feito um excelente trabalho na sensibilização da população para as consequências de partilhar conteúdo privado, especialmente de cariz sexual, em plataformas digitais.

Segundo o previsto na alínea 2b) do artigo 152º do Código Penal: “Difundir através da Internet ou de outros meios de difusão pública generalizada, dados pessoais, designadamente imagem ou som, relativos à intimidade da vida privada de uma das vítimas sem o seu consentimento”, é considerado violência.

E o sexo?

É também na adolescência que geralmente se iniciam as primeiras experiências sexuais, que poderão tornar-se também um fator de risco para sintomas psicopatológicos. O maior acesso a informação de foro sexual parece ainda não ser suficiente para a consciencialização de relações seguras e saudáveis.

A educação sexual é uma ferramenta essencial na educação dos jovens, promovendo a consciencialização e compreensão do que são relacionamentos abusivos e de como pedir auxílio, ou seja, é importante conhecer os sinais de alarme para prevenir.

Mas não é possível falar de sexo sem falar de consentimento!

Consentimento sexual é quando ambas as pessoas concordam ativamente em se envolverem intimamente e/ou sexualmente. Qualquer atividade sexual não consentida é considerada uma violação” (IPDJ, 2025).

A promoção do diálogo e segurança no seio familiar será também essencial, não só para a prevenção de comportamentos de risco, mas também para pedidos de auxílio. Contudo, a harmonia e confiança familiar deve ser trabalhada desde a infância, para facilitar a procura de suporte por parte dos adolescentes nos seus cuidadores.

Então o que é um namoro saudável?

Um namoro saudável consiste numa relação que assenta na confiança, na privacidade, na partilha de experiências (consentidas), na liberdade, na empatia, no respeito e apoio mutuo, com limites e comunicação claros, na qual os conflitos são naturais, mas resolvidos sem recurso a comportamentos abusivos.

Algumas questões para auxiliar na reflexão…

  • Existe confiança e espaço para eu ser quem sou nesta relação?
  • As minhas opiniões e crenças são respeitadas?
  • Sinto que tenho de mudar para ele/ela gostar de mim?
  • Afastei-me dos meus amigos?
  • Existem comportamentos que não consigo perdoar?
  • Sinto-me infeliz, triste ou zangado/a?
  • Existe controlo ou algum tipo de agressão?

Romina Pereira/ Psicóloga e Psicoterapeuta © Psicoajuda – Psicologia certa para si, Leiria

Sobre o Autor

Romina Pereira

Psicóloga clínica e Psicoterapeuta na PsicoAjuda. Mestrado em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. Membro efetivo da Ordem dos Psicólogos.