Época natalícia

Natal reforça ou desafia laços afetivos?

In Psicologia clinica por Elisabete Condesso

O Natal é, para muitas pessoas a época emocionalmente mais intensa do ano. Para algumas pessoas, representa aconchego, união e reencontros, no entanto, para outras é uma data festiva que intensifica tensões familiares, solidão e pressões emocionais. Surge então a seguinte dúvida, o natal reforça ou desafia laços afetivos.

A iluminação nas casas e ruas, os reencontros com familiares e amigos, a nostalgia e as expectativas criam todo um cenário que pode tanto aproximar quanto afastar as pessoas.

Sem dúvida que, entre abraços calorosos convivem muitas vezes: silêncios, inquietações, memórias difíceis de digerir assim como tensões familiares que durante todo o ano permanecem adormecidas, porque não existe confronto.

Mas afinal o Natal reforça ou desafia os laços afetivos? A resposta, como quase sempre na psicologia é, depende. Depende de histórias familiares vivenciadas, de dinâmicas, contextos bem como das necessidades emocionais de cada pessoa.

Encontro de família com afetos
Encontro de família com afetos

O Natal reforça laços afetivos

A força dos rituais e de tradições familiares

Ao longo de séculos que se tem vindo a constatar que o ser humano é profundamente simbólico. Rituais como: montar a árvore de natal, preparar a ceia ou a troca de presentes criam nas pessoas a sensação de continuidade entre passado e presente oferecendo previsibilidade, segurança emocional e um senso de identidade familiar. São estes pequenos gestos que ativam memórias afetivas e fortalecem a conexão entre as pessoas, sobretudo entre gerações.

Oportunidades de reencontro

O Natal convida ao contato, mesmo quando a rotina diária nos afasta. Famílias que moram longe, amigos que quase não se veem e pessoas que vivem relacionamentos emocionalmente distantes encontram um motivo concreto para se aproximar de novo. Esse reencontro, quando bem-sucedido, pode reaquecer vínculos que o tempo esfriou.

O espirito de empatia e generosidade

A ideia cultural do “espírito natalício” incentiva atitudes de solidariedade, cuidado e generosidade, ou seja, praticar empatia desperta em nós a sensação de bem-estar e fortalece os relacionamentos porque traz à tona a nossa melhor versão.

O Natal desafia os laços afetivos

Conflitos familiares latentes

A atmosfera festiva pode funcionar como lupa para tensões não resolvidas: desentendimentos antigos, mágoas acumuladas, diferenças de valores e até disputas sobre papéis familiares, de facto um grade desafio para os laços afetivos, assim quando a família se reúne tudo isso pode emergir e nem sempre há preparação emocional para a melhor gestão da situação.

A pressão da expectativa

O imaginário social de que “no Natal tudo deve ser perfeito” é um convite à frustração, certamente que a busca por harmonia pode levar a comportamentos artificiais, esforço excessivo ou tentativas de agradar que acabam por desgastar ainda mais os vínculos.

Solidão dentro e fora do seio familiar

Pessoas que passam o Natal sozinhas podem experimentar uma solidão muito intensa, porém há pessoas que mesmo cercadas por familiares podem se perceber isolados emocionalmente. De facto, o contraste entre o ideal e a realidade pode revelar fragilidades nas relações.

Reforço dos laços familiares e afetivos
Reforço dos laços familiares e afetivos

Natal emocionalmente mais saudável

Ajuste as expectativas

Permitir que o Natal seja apenas o que “precisa ser” e não o que “deveria ser” reduz a pressão emocional porque as famílias não são perfeitas, e está tudo bem.

Estabeleça limites

Participar das festividades não significa abrir mão do conforto emocional. Limites saudáveis protegem vínculos e não o contrário.

Resgatar o significado pessoal da data

Para uns é espiritual, para outros é afetivo e para alguns, é apenas um momento de pausa. Certamente que encontrar um sentido próprio nos traz leveza.

Valorize as conexões genuínas

Mais importante do que a mesa de natal cheia é o encontro real, mesmo que aconteça com um grupo reduzido de pessoas ou de uma forma simples.

De facto, podemos constatar que a época natalícia não é, por si só, um vilão nem um salvador de relacionamentos, sem dúvida que funciona como um amplificador emocional que intensifica o que já existe. Ou seja, as relações saudáveis tendem a ser mais fortes, enquanto vínculos fragilizados podem evidenciar as fissuras existentes ou mesmo agrava-las.

Como tal, mais do que esperar que o Natal transforme as nossas relações, vale a pena olhar para a data como um momento de reflexão, partilhamos de seguida algumas questões que nos devem fazer pensar:

O que pretendemos nutrir no próximo ano?

Os ajustes a fazer?

E como podemos construir vínculos saudáveis mais conscientes, reais e afetivos?

Para finalizar, podemos afirmar que o Natal pode reforçar os nossos laços afetivos, sobretudo quando escolhemos fazer disso uma prática ao longo do nosso ano e não apenas num único dia.

Elisabete Condesso / Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta © Psicoajuda – Psicologia certa para si, Leiria

Imagens: Cortesia Freepick

Sobre o Autor

Elisabete Condesso

Directora clínica da PsicoAjuda. Psicóloga clínica e Psicoterapeuta. Licenciada em Psicologia Clínica pela ULHT de Lisboa e com pós-graduação em Consulta Psicológica e Psicoterapia. Membro efetivo da Ordem dos Psicólogos. Título de especialista em “Psicologia clínica e da saúde” atribuído pela Ordem dos Psicólogos.