Ao longo da nossa vida iremos lidar com luto e perdas: compreender o sofrimento e aprender a viver será um grande desafio para todos nós.
Em idade mais avançada, por exemplo, poderemos ter de gerir perdas físicas como dificuldades na mobilidade, sendo mais difícil fazermos atividades diárias, perdemos força, aumenta o risco de doenças e é comum perdermos também capacidades auditivas e visuais, o que de facto, nos pode trazer algum receio de conviver com os outros porque não percebermos bem o que nos estão a dizer.

Independentemente da nossa idade, estamos sempre vulneráveis a perdas, sejam emocionais, de amigos, familiares e cônjuges, o que pode levar à solidão, tristeza e até mesmo à depressão. Tendo isto em conta, e de modo a uma focagem mais produtiva, hoje debruçar-nos-emos sobre uma perda específica, morte ou desaparecimento de um ente querido.
A evolução da morte e do luto
A morte, segundo alguns autores, era até meados do séc. XVIII encarada como um acontecimento perfeitamente natural e tinha um carácter mais familiar e de maior proximidade, dado o crescendo de mortes em casa, onde o falecido era acompanhado por padre, familiares e amigos na hora da “despedida”.
Costuma-se dizer “mudam-se os tempos, mudam as vontades”, neste caso atrever-me-ia a modificar, não querendo sucumbir na ousadia, mas mudam-se os costumes. Assiste-se, e acrescento o que observo da minha prática clínica, a um maior evitamento e dificuldade no contacto com a morte, o que pode também estar conectado com a tendência para as pessoas faleceram nos hospitais.
Em resumo, a morte não é bem aceite na nossa sociedade. Há tendência para a esconder, numa tentativa de nos defendermos, no entanto, não há nada mais natural que a morte! Aceitar a morte é, poder falar dela sem medo porque é normal, quando ocorre a morte de alguém que nos é próximo vivermos com sofrimento e desespero, com tristeza e ansiedade, e até mesmo culpa ou raiva. Dificuldades em dormir e até sonhos relacionados com a morte da pessoa, ou sentir que no sonho ela ainda está viva.
O que é o luto e perda?
Importa referir que o luto é uma resposta natural à perda de alguém próximo e faz parte do processo de nos adaptarmos a uma nova realidade, na ausência física da outra pessoa. Pode afetar todos os aspetos da nossa vida, acompanhado de sentimentos como a tristeza, angústia, medo, irritabilidade, sentimento de vazio, culpa), pensamentos, crenças, comportamentos, saúde física e até as relações com os outros.
Um dos modelos que retrata as várias fases que existem quando passamos por um processo de luto nas nossas vidas, menciona cinco fases: a negação, raiva, negociação, depressão e por fim a aceitação da perda (Kubler-Ross, 2008).
Já, segundo Bowlby (1985), existem 4 fases do luto:
- Choque e negação – falha na aceitação da perda da figura importante da sua vida, ficando num estado categorizado como paralisado ou entorpecido;
- Protesto – pode ser retratada como uma tentativa sistemática de recuperar e reunir-se com a pessoa perdida o que pode levar a sintomatologia ansiosa, revolta;
- Desespero e desorganização – reflexão sobre a impossibilidade do regresso do ente querido, surgindo tristeza, abandono, impotência;
- Reorganização – não obstante a saudade, gradualmente vai aparecendo uma recuperação de interesses, de conexões com o outro;
Vivemos numa sociedade onde achamos que há tempo definido e razoável para a dor e a vontade (ainda que de boa intenção) é aliviar a dor da pessoa que está ao nosso lado.
Por vezes um “não chores”, ainda que bem-intencionado, prejudica e não traz bem. Isto porque mesmo as emoções mais desagradáveis como raiva e tristeza são importantes de serem vividas!
Em síntese, o luto é um processo muito doloroso, que pode constituir-se como uma experiência muito stressante e, se vivido de forma não integrada, pode refletir-se em alterações no funcionamento emocional e cognitivo do enlutado.
Luto sem complicações vs luto complicado
Quando nos referimos a luto sem complicações, abordamos uma resposta “normal”, transitória, e de curta duração. Naturalmente existe tristeza, dor e sofrimento, acompanhados possivelmente de algum desespero e bastante saudade. Ainda assim, o enlutado continua a mover-se nas várias dimensões e contextos da sua vida.
Para o enfrentamento deste processo de luto (doloroso), é necessária a aceitação gradual da perda e a readaptação do indivíduo à nova realidade onde o ente querido já não se encontra fisicamente presente na sua vida.
Por sua vez, o luto complicado não encontra a sua resolução e estagna em determinada fase do luto.
Fatores de risco e fatores protetores no luto
Preditores negativos
- Tipo de relação com o ente querido que faleceu (intensidade do vínculo que existia);
- Traços de personalidade e funcionamento (sentimentos de dependência ou incapacidade);
- Progressão rápida de uma doença ou notícia inesperada;
- As crenças que cada um de nós tem sobre a morte (podem ser de risco ou protetoras em relação à adversidade);
- Histórico de outras perdas;
- Falta de suporte familiar;
- Registo de outras psicopatologias (depressão, por exemplo);
Preditores positivos
- Capacidade de cuidarmos de nós (autocuidado);
- Aptidão para vivenciar emoções agradáveis;
- Conforme falámos há pouco, as nossas cognições (crenças, por exemplo, relativamente à morte, como a confiança na própria recuperação do enlutado);
O que é a tristeza? Compreender o sofrimento e aprender a viver
Infelizmente é nos passada a ideia que temos que estar sempre felizes, quando é importante em muitas ocasiões da nossa vida estarmos tristes. Os principais sintomas de tristeza são o cansaço, a perda de apetite, insónias e vontade de chorar.

O choro tem a função de equilibrar os nossos níveis hormonais, ajudando-nos assim a remover substâncias tóxicas no nosso corpo, como tal conseguimos perceber o quão importante é o choro e a tristeza. Se num luto onde perdemos alguém nos sentirmos tristes, é extremamente saudável!
Estarmos tristes pela morte de alguém é uma reação que não é patológica e não é má! Vivemos, e somos ensinados que não devemos chorar ou estar tristes e que as emoções são negativas, e isto já afeta e leva a que não nos permitamos sentir e estar tristes. No entanto, não há emoções negativas, mas sim umas mais agradáveis e outras nem tanto. A tristeza pode ser vista como desagradável, mas muitas vezes, como se constata, é extremamente saudável!
No entanto, quando lidamos com tristeza durante muito tempo pode ser um sinal que alguma necessidade nossa não está satisfeita, e podemos estar a experienciar a evolução de uma tristeza menos saudável, e que precisamos de ajuda para perceber o propósito dela e mudar a forma como nos sentimos perante o que aconteceu.
Quando existem alguns dos fatores de risco acima mencionados, poderemos estar mais próximos de experienciar uma enorme dificuldade no ajustamento à realidade onde a pessoa já não está mais presente fisicamente.

Procura de apoio psicológico no luto
Se conhecermos alguém ou se estivermos a vivenciar desgaste e impedimentos na reposição da nossa energia emocional e continuação da vida sem o ente querido que faleceu, é muito importante ativarmos a capacidade e coragem de procurar a ajuda de um profissional em Psicologia ou Psiquiatria que o acompanhe no de busca de ferramentas que lhe permitam conviver e relacionar com a dor, caminhando devagarinho para uma vida um pouco mais gratificante, promovendo uma adaptação onde a pessoa não está mais presente fisicamente, mas continua presente na memória e vida da pessoa, de forma integrada e funcional.
Dr. Tiago Marques/Psicólogo Clínico © Psicoajuda – Psicologia certa para si, Leiria
Imagens cortesia: Freepick

