Sair à noite, o que fazer?

Pai, Mãe, posso sair à noite?

Em Psicologia adolescentes por Elisabete Condesso

“Posso sair à noite?” Assim começa a conversa … e as preocupações de muitos pais com as saídas noturnas do seu filho. O que fazer?

(Este artigo foi publicado na revista Pais&Filhos, Adolescentes, edição especial 2017/2018, pag. 38-41)

Sair à noite, artigo PsicoAjuda na revista Pais e Filhos

Sair à noite, artigo PsicoAjuda na revista Pais e Filhos

Para o adolescente dos nossos dias, qualquer pretexto serve para sair à noite: fim do período escolar, festa de aniversário, concerto, … ou simplesmente porque quere “sair”. Nas férias, para além das habituais saídas à noite à sexta ou sábado, procura fazer noitadas extra com a justificação de que está em período de descanso.

Perante esta solicitação do jovem adolescente, “posso sair à noite?”, muitos pais colocam as seguintes questões e dúvidas:

“Será que já tem idade para sair à noite?”

“Se hoje o deixo sair, irá estar constantemente a pedir-me para sair?”

“Peço-lhe para voltar para casa às 00h, 2h, …?”

“Devo saber com quem vai, como vais, …?”

“Que regras devo definir para evitar possíveis perigos?

Sair à noite: não é opção negar … mas com regras claras

Apesar da preocupação dos pais ser legitima, sobretudo quando o seu filho adolescente começa a sair, lembre-se que como pai ou mãe não pode deixar-se dominar por este receio. Negar ao seu filho as experiências de sair à noite não é opção.

Ele tem uma visão do mundo que é ainda infantil, pelo que tem necessidade de explorar novas formas de pensar, sentir e perceber, de modo a integrar uma realidade que ainda não lhe pertence – o mundo dos adultos. Este processo é fundamental para a sua individualização e autonomia, para que possa tornar-se num adulto saudável. Estará a pensar: “E se lhe acontece alguma coisa? Há tantos perigos à noite … e ele ainda não tem maturidade para lidar com essas situações!”.

É verdade que é impossível evitar todo o tipo de situações perigosas. O imprevisto faz parte da vida. Há um risco, mas o que importa é conhecer o seu grau e controlá-lo, com informação e conhecimento correto. Se conhece o seu filho e lhe proporciona um espaço de diálogo, partilha e amor, dê-lhe um voto de confiança … mas com alguns limites. Deverá impor-lhe regras claras para a saída à noite.

De facto, um aspeto fundamental, ainda antes de começar a sair à noite, é o estabelecimento de regras precisas sobre a forma como o seu filho deverá comportar-se. Provavelmente, ele irá pensar que isso é “uma seca”, portanto é sua responsabilidade negociar os limites e regras de uma forma agradável e em conjunto com ele. É importante que ele sinta que isso é não só razoável como necessário para garantir a sua segurança e bem-estar.

Sair à noite, evitar riscos e perigos

Sair à noite, evitar riscos e perigos

Sair à noite: desde a infância na conquista da autonomia e independência

Se quer ganhar a batalha da gestão das saídas à noite terá que começar a investir durante a infância. Desde muito cedo, terá que definir regras e horários para que a criança comesse a interiorizar a necessidade de prestar contas aos pais, por exemplo, quando leva o seu filho a casa de um amigo ou quando traz amigos para sua casa. Assim, quando chegar à adolescência, terá mais facilidade em compreender a necessidade de definir regras e estabelecer limites.

Cultivar a relação pais-filho desde a infância é essencial. É o dia-a-dia dessa relação que estrutura o “eu” e dá personalidade ao seu filho, que lhe permite ter os recursos necessários para tomar as pequenas e grandes decisões. Quando pais e filhos têm o hábito do diálogo, tudo se torna mais fácil, pelo que um acordo sobre as saídas à noite parecerá algo natural. Deve também ter em atenção que os pais não devem permanecer isolados. O diálogo com os pais dos amigos dos filhos é sempre útil. Contudo, essas conversas entre adultos não devem ser feitas sem conhecimento dos adolescentes, porque a confiança é um bem que deve preservar na relação com o seu filho.

A alternativa não é “agarrar os filhos como faz a galinha aos pintos” – para além de criar uma dependência tóxica e destruidora do “eu” – estará a admitir a sua desconfiança na educação que deu ao seu próprio filho. E a situação será agravada mais tarde, porque ele necessariamente terá que enfrentar esses mesmos riscos, só que na idade adulta, numa altura desadequada no que respeita à sua capacidade de enfrentar esses mesmos riscos. Deste modo, não estará a permitir que o seu filho se torne num adulto autónomo, independente e saudável. 

Sair à noite: a importância dos horários

Porquê deve impor horários ao seu filho quando sair à noite? O adolescente tem que gerir as 24h. Só que com as saídas à noite, uma vez que não pode reduzir as horas que passa na escola ou que dedica ao estudo, acaba por “cortar” no que pensa ser supérfluo – as horas de sono. Para além da redução do número de horas, uma vez que se deita mais tarde, tende a dormir durante grande parte da manha do dia seguinte. Dá-se uma alteração do padrão de sono-vigília.

Alteração do ciclo do sono

Os efeitos da alteração no ciclo do sono manifestam-se através da dificuldade em acordar e na sonolência diurna, indicativos de que o jovem não dormiu o suficiente para a sua idade e necessidades: 8 a 9 horas diárias. Naturalmente, esta desregulação do relógio interno agrava-se se se intensificarem as saídas à noite. Produz-se uma restrição de sono cumulativa agravada pelas horas que não dorme durante vários dias seguidos.

Impactos ao nível emocional e relacional

As consequências que daqui resultam são bastante graves, manifestando-se aos níveis cognitivo, emocional e comportamental. Ao nível cognitivo, observa-se um impacto na memória, atenção e funções executivas, com impacto direto no aproveitamento escolar. Ao nível emocional, o jovem tende a apresentar um humor lábil, como maior irritabilidade perante situações menores. O comportamento tende a ser de agressividade, com oposição e desafio. Esta deterioração ao nível emocional e comportamental tende a originar dificuldades sobretudo no plano das relações com os outros, em particular com os pais. Nos casos mais graves, pode observar-se absentismo ou recusa em ir para a escola, ou mesmo algum problema psicológico como a depressão ou a ansiedade.

Estabelecer um horário para voltar para casa

Então, como pode impor horários quando sair à noite? Primeiro, tem que definir uma hora para o seu filho voltar para casa. Aqui começa a primeira dificuldade para a maioria dos pais. Perante a imposição de determinado horário, é comum o adolescente dizer que “ninguém regressa às 3 da manhã”, o que geralmente conduz a grandes discussões. Há pais que por não saberem gerir este conflito, simplesmente proíbem as saídas noturnas; outros, pelo contrário, não conseguem impor regras ou são demasiado condescendentes, deixando ao critério (i)maturo do filho adolescente.

A hora de regresso a impor ao seu filho terá que ter em conta a idade, grau de maturidade/responsabilidade e impacto na restrição de sono. Em segundo lugar, deve estipular a hora a que o seu filho terá que acordar no dia seguinte, de modo a desregular ao mínimo o padrão de sono-vigília (deve considerar um mínimo de 6h de sono). Finalmente, é preferível permitir uma saída à noite na sexta-feira (em vez de no sábado) a fim de amenizar o impacto dessa saída até 2ªfeira, altura em que o seu filho terá que voltar para a escola.

Sair à noite, estar com os amigos

Sair à noite, estar com os amigos

Sair à noite: alguns conselhos práticos

Afinal com que idade pode começar a sair à noite? Ou com que frequência deve sair e a que horas deve chegar a casa? O que deve fazer se ele não cumprir? A estas e outra perguntas vou responder dando-lhe alguns conselhos práticos.

Com que idade pode começar a sair à noite?

O grau de maturidade do adolescente é mais determinante do que propriamente a idade ou o género, não havendo razão para diferenciar rapazes e raparigas. Assim, cada pai terá que fazer a avaliação de como o seu filho ou filha em geral se comporta em termos de responsabilidade e capacidade para resolver as situações. Em termos gerais, podemos considerar que as saídas antes dos 14 anos não são aconselháveis, pois antes desta idade não existe habitualmente maturidade para lidar com situações inesperadas.

Com que frequência deve o adolescente sair à noite?

Deve acordar previamente com o seu filho adolescente a frequência das saídas. Se aos 14 anos deve ser muito esporádica, por exemplo, para celebrar o aniversário de um colega, a frequência pode ir aumentando gradualmente, à medida que o seu filho for demonstrando mais maturidade. É claro que esta regra deve ter em conta a época do ano, pois em tempo de aulas as saídas devem uma exceção e no período de férias podem ser mais frequentes.

A que horas deve regressar a casa?

A guerra das horas para chegar a casa: o adolescente quer sempre mais tarde, os pais querem sempre mais cedo. Aos 14 anos, esta regra não é negociável. Os pais estabelecem a hora que consideram apropriada e o filho ou filha tem que aceitar esse facto, ou, em alternativa, fica em casa. A partir dos 16 anos, os pais podem começar a negociar a hora de regresso.

O que não é negociável?

Há aspetos que não são negociáveis. Alguns exemplos são: não saber a que horas vem, não saber com quem vai e com quem regressa. Como referi, tem que definir a que horas regressa a casa. Se o seu filho ainda for bastante novo, é preferível “servir de motorista”, quer na ida, quer no regresso da festa. Pode também combinar as boleias com outros pais, alternando entre uns e outros quem leva e vai buscar os filhos. Se o seu filho for mais velho, não necessita de saber todos os nomes dos amigos com quem vai, mas deve conhecer pelo menos um ou dois, saber os números dos seus telemóveis, para o caso de necessitar de contactar com o seu filho e ele não atender. Como o seu filho poderá pensar que é só para o controlar, deve explicar-lhe que é apenas por uma questão de segurança e que só irá ligar para o amigo numa situação de emergência.

O que devo fazer se ele não cumprir?

Como referi, ainda antes de começarem as saídas noturnas, têm que ser estabelecidas regras precisas sobre a forma como o seu filho tem que comportar-se nas saídas noturnas. Mas também deve definir com antecedência, as consequências do não cumprimento das mesmas. O seu filho tem que saber, sem qualquer ambiguidade, o tipo de castigo que o espera se não cumprir. A consequência deve ser proporcional, justa e que possa ser cumprida. Não adianta dizer “não sais mais à noite estas férias”, que seria desproporcional, ou “nunca mais sais à noite”, que seria impossível de cumprir. Em vez disso, poderá dizer “não sais à noite nas próximas duas semanas”.

As regras de ouro quando sair à noite

Apresento-lhe resumidamente as regras de ouro que poderá seguir nas saídas à noite do seu filho adolescente.

  • Deve definir regras claras e concretas sobre “sair à noite”, combinadas com antecedência e acordadas com o seu filho.
  • Ele poderá começar a sair a partir dos 14 anos, mas sempre dependente do seu grau de maturidade e capacidade de resolver situações inesperadas.
  • Tem que deixar claro a sua posição sobre o consumo de álcool. Se ele ainda não tem idade para consumir álcool, não o deve fazer; se já tem idade, deve ser responsável e deve deixar muito claro o que entende por “ser responsável”.
  • Antes da saída, deve ficar claro (e acordado) e não é negociável:
  1. Para onde vai e qual vai ser o evento (festa de anos, ida ao cinema, jantar no restaurante, discoteca).
  2. Com quem vai (não necessita de saber todos os nomes, mas deverá conhecer pelo menos um ou dois amigos).
  3. Como vai regressar (com um dos pais, transporte público, táxi, a pé).
  4. A que horas regressa (defina uma hora concreta, por exemplo, 3h da manhã em casa). Converse com o seu filho e ajuste o horário que ele possa cumprir tendo em conta o tipo de evento.
  5. Número do telemóvel de um ou dois amigos com quem vai (ou dos seus pais) – e explique que só servirá para uma situação de emergência.
  6. As consequências pelo não cumprimento devem ser previamente conhecidas e proporcionais à situação. Se as regras não forem cumpridas, deverá ser sempre intransigente na aplicação de um castigo justo.

Ser flexível e compreensivo

Tente ser flexível e compreensivo. Mas lembre-se que algumas regras são não negociáveis pela segurança e bem-estar do seu filho! Por isso, adicionalmente deverá considerar o seguinte:

  • O seu filho tem que saber que estará sempre disponível para o ir buscar “sem fazer perguntas”. Claro que terá que discutir a situação no dia seguinte. Mas quando ele necessitar, tem que saber que há um adulto disponível para o ajudar. Mais do que isso, o seu filho necessita de saber que os seus pais estarão sempre disponíveis para o ajudar, independentemente das circunstâncias.
  • Combine com ele um “código de segurança”. Se ele estiver metido nalgum sarilho e não poder ligar para explicar o que se está a passar, poderá enviar-lhe uma mensagem a sinalizar que necessita da sua ajuda.

Em resumo, a adolescência é uma etapa difícil no desenvolvimento do seu filho, na qual ele quererá testar os limites e questionar alguma regras. As saídas à noite fazem parte de um percurso com vista à conquista da autonomia e independência, essenciais na fase adulta. Por isso, é fundamental que o seu filho consiga ultrapassar essa fase com a sua ajuda. Os pais precisam de ser contingentes – o seu filho terá que saber que pode contar consigo em quaisquer circunstâncias. Contudo, como pai ou mãe tem que manter-se firme com as regras para as saídas à noite.

Elisabete Condesso / Psicóloga e Psicoterapeuta

© PsicoAjuda – Psicoterapia certa para si, Leiria

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Sobre o Autor

Elisabete Condesso

Directora clínica da PsicoAjuda. Psicóloga clínica e Psicoterapeuta. Licenciada em Psicologia Clínica pela ULHT de Lisboa e com pós-graduação em Consulta Psicológica e Psicoterapia. Membro efetivo da Ordem dos Psicólogos. Título de especialista em “Psicologia clínica e da saúde” atribuído pela Ordem dos Psicólogos.