Automutilação, um distúrbio do comportamento

Automutilação, distúrbio do comportamento

Em Psicologia adolescentes por Elisabete Condesso

A automutilação é um distúrbio do comportamento em que são autoinfligidas feridas, isto é, a pessoa agride o próprio corpo sem a intenção consciente de suicídio. A pessoa que se automutila geralmente está consciente das suas feridas e tenta escondê-las a todo custo usando roupas compridas, ou então dá explicações alterativas para as suas feridas.

O automutilador não está com intenção de interromper a sua própria vida, mas usa esse comportamento com a intenção de aliviar as dores emocionais, quando se sente com uma profunda tristeza, raiva, ansiedade, ou ainda outras emoções como a angústia e a frustração.

 

Perfil da pessoa que se automutila

Geralmente a pessoa que se automutila possui uma autoestima baixa e apresenta problemas ao nível das relações interpessoais, tendendo, por isso, a afastar-se da família e dos amigos, por sentir-se “um fracasso, uma criatura insignificante”. O automutilador tende a revelar grandes dificuldades na expressão verbal e não consegue manifestar as suas emoções, pelo que não fala com os outros sobre as suas angústias e problemas. Essas dificuldades acabam, em muitos casos, por ser um dos fatores que desencadeia o comportamento automutilador.

A pessoa automutila-se com a intenção de interromper uma dor emocional muito forte, tratando-se assim de uma espécie de troca da dor emocional pela dor física. Só que essa troca é enganadora, pois ocorre que a dor emocional é suplantada apenas momentaneamente pela dor física.

Muitos automutiladores ferem-se como forma de autopunição, por sentirem-se fracassados e inúteis. É um comportamento que a pessoa não consegue controlar. Logo após a crise, em que o automutilador se fere ou apresenta comportamentos agressivos, permanece o sentimento de culpabilização, em que a pessoa geralmente chora muito e passa por um sentimento de grande fracasso.

O automutilador revela uma extrema dificuldade em falar sobre si, sobretudo acerca da sua doença, pois tem medo da rejeição, de ser julgado ou incompreendido, pois acredita que só quem passa pelo mesmo é que o pode compreender.

Como forma de esconder ao máximo as feridas e cicatrizes, a pessoa abandona qualquer tipo de atividade em que seja necessário a exibição do corpo, como ir à praia ou a prática de desportos colectivos.

 

Formas de automutilação

Este transtorno consiste em infringir sofrimento físico geralmente através de facas, lâminas e tesouras, provocando cortes na pele dos braços, pernas, coxas e abdómen – é muito comum o corte da pele no pulso esquerdo – isto é, os cortes são realizados em áreas escondidas de difícil deteção pelas outras pessoas. O corte é sinal de sofrimento psíquico em que o(a) jovem enfrenta algo muito difícil de lidar, sentindo medo, solidão e desespero.

Formas de automutilação

Formas de automutilação

Apresento-lhe os exemplos de formas de automutilação mais comuns:

  • Cortar-se
  • Furar-se com agulhas, canetas, pregos
  • Apertar ou reabrir feridas
  • Queimar-se com cigarros
  • Bater-se, esmurrar-se, ou chicotear-se
  • Arrancar cabelos
  • Enforcar-se por instantes

Geralmente os pais e amigos notam mudanças no comportamento, desinteresse por atividades que antes o(a) filha ou amigo(a) gostava, queda do rendimento escolar, isolamento, uso de roupas e mangas longas em dias quentes, e cortes frequentes nos braços e pernas. É muito importante que os pais e amigos se mantenham próximos da pessoa, conheçam os seus gostos pessoais e saibam com quem ele convive (amigos recentes).

Este comportamento de automutilação revela desejo de afirmação da pessoa e, ao mesmo tempo, um sentimento de vergonha. Por isso o(a) jovem, nesta situação, necessita de se sentir acolhido e compreendido.

 

Causas da automutilação

A automutilação é consequência de problemas emocionais e relacionais, geralmente associada a problemas como depressão, bulimia, anorexia, bullying, transtornos alimentares, entre outros.

Na adolescência, a violência da autodestruição é, muitas vezes, sentida pelos adolescentes como o último meio de controlar, seja lá o que for, perante uma situação que os ultrapassa, como neste caso a perturbação emocional. O comportamento destrutivo geralmente é uma forma de buscar alivio para a situação que parece fora de controlo.

O comportamento de automutilação serve de “medicação” para aliviar o estado emocional do adolescente, é usada para aliviar sensações de angústia, tristeza e culpa. As ideias suicidas refletem uma vulnerabilidade à sintomatologia depressiva e revela uma insatisfação consigo mesmo e com os outros, que não deve ser negligenciada.

 

Qual o tratamento

Para o tratamento da automutilação como distúrbio de comportamento, tem-se mostrado eficaz o recurso simultâneo à psicoterapia e medicação. A psicoterapia visa ajudar o paciente a procurar outras formas de lidar com as frustrações. A medicação pode ser eficaz na diminuição do alívio dos sintomas depressivos e ansiosos, ou na diminuição da impulsividade, o que diminuiu a vontade do paciente em automutilar-se.

O melhor será que o paciente procure um psicólogo que possa fazer o diagnóstico e apresente um plano terapêutico. Esta iniciativa deve partir do próprio paciente, não sendo indicado forçá-lo.

Os pais e amigos devem estar atentos, e quando notarem mudanças no comportamento da pessoa que poderá enquadrar-se num quadro clínico de automutilação, deverão incentivá-lo a procurar voluntariamente ajuda psicológica. O automutilador necessita, sobretudo, do apoio da família e amigos.

Elisabete Condesso / Psicóloga e Psicoterapeuta

© PsicoAjuda – Psicoterapia certa para si, Leiria

Sobre o Autor

Elisabete Condesso

Directora clínica da PsicoAjuda. Psicóloga clínica e Psicoterapeuta. Licenciada em Psicologia Clínica pela ULHT de Lisboa e com pós-graduação em Consulta Psicológica e Psicoterapia. Membro efetivo da Ordem dos Psicólogos. Título de especialista em “Psicologia clínica e da saúde” atribuído pela Ordem dos Psicólogos.